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Réu primário: O que isso pode influenciar no processo e na pena?

Réu primário: O que isso pode influenciar no processo e na pena?

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Réu primário é quem não possui condenação anterior com trânsito em julgado apta a gerar reincidência, ou cujo prazo depurador de cinco anos já transcorreu, conforme os arts. 63 e 64 do Código Penal. A primariedade não reduz a pena de modo automático, mas é requisito legal expresso para substituição por penas restritivas de direitos, regime inicial menos gravoso, sursis, ANPP e frações menores de progressão de regime. Este artigo explica cada um desses reflexos com base na lei em vigor.

O que significa ser réu primário — e o que a lei não diz

Réu primário é aquele que não é reincidente. A reincidência, definida nos arts. 63 e 64 do Código Penal, ocorre quando o agente pratica novo crime depois do trânsito em julgado de condenação anterior, dentro do prazo de cinco anos contado do cumprimento ou extinção da pena.

Quem nunca foi condenado, ou cujo prazo depurador já transcorreu, é primário para fins penais. Há dois pontos técnicos que a defesa precisa conhecer:

  1. Primariedade não se confunde com bons antecedentes. Uma pessoa pode ser primária e ainda ter antecedentes desfavoráveis avaliados na primeira fase da dosimetria, com base no art. 59 do Código Penal.
  2. Inquéritos e ações penais em curso não podem agravar a pena-base. A Súmula 444 do STJ veda expressamente esse uso [VERIFICAR status vigente em stj.jus.br]. Enquanto não houver condenação com trânsito em julgado, o acusado permanece tecnicamente primário.

A primariedade reduz a pena automaticamente?

Não. A primariedade não figura no rol de atenuantes legais do art. 65 do Código Penal. As atenuantes ali listadas — como ser menor de 21 anos ou confessar espontaneamente — têm aplicação obrigatória quando presentes. A primariedade produz dois efeitos distintos:

  1. Entra como circunstância judicial favorável na análise do art. 59 do CP (primeira fase da dosimetria).
  2. É requisito legal expresso para acesso a institutos despenalizadores e de execução penal listados na tabela abaixo.

A primariedade favorece; não garante.

Em quais institutos a primariedade é requisito ou fator relevante?

A tabela reúne os principais institutos em que a ausência de reincidência é condição legal ou fator determinante:

InstitutoBase legalPapel da primariedadeOutros requisitos principais
Substituição por penas restritivas de direitosArt. 44 do CPRequisito expresso: ausência de reincidência em crime dolosoPena até 4 anos; crime sem violência ou grave ameaça; circunstâncias favoráveis do art. 59
Regime inicial aberto ou semiabertoArt. 33 do CPRequisito expresso: não reincidentePena até 4 anos (aberto); de 4 a 8 anos (semiaberto); circunstâncias do art. 59
Suspensão condicional da pena (sursis)Art. 77 do CPRequisito expresso: não reincidente em crime dolosoPena até 2 anos; circunstâncias favoráveis; substituição do art. 44 não indicada
Suspensão condicional do processoArt. 89 da Lei 9.099/95Requisito indireto: não estar sendo processado nem ter sido condenado por outro crimePena mínima até 1 ano; requisitos que autorizariam o sursis
Transação penalArt. 76 da Lei 9.099/95Fator favorável: não ter sido beneficiado nos cinco anos anterioresInfração de menor potencial ofensivo; circunstâncias favoráveis
Acordo de Não Persecução Penal (ANPP)Art. 28-A do CPP — Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019)Requisito expresso: investigado não reincidente; sem habitualidade ou reiteração criminalPena mínima inferior a 4 anos; crime sem violência ou grave ameaça; confissão formal
Progressão de regime (fração básica)Art. 112 da LEP — redação do Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019)Requisito expresso: fração menor para primário16% (sem violência/grave ameaça); 25% (com violência/grave ameaça)

Primariedade e bons antecedentes: qual a diferença prática?

Primariedade e bons antecedentes são conceitos distintos e produzem efeitos em fases diferentes da dosimetria. A confusão entre eles é frequente e pode custar caro na defesa.

AspectoPrimariedadeBons antecedentes
Definição legalAusência de reincidência (arts. 63-64 do CP)Histórico criminal avaliado pelo juiz (art. 59 do CP)
Fase da dosimetria2ª fase — agravantes e atenuantes (reincidência como agravante)1ª fase — circunstâncias judiciais do art. 59
Efeito na penaImpede a agravante de reincidênciaPode reduzir a pena-base se favoráveis
Podem coexistir de forma desfavorável?Sim. Uma pessoa pode ser primária e ter antecedentes desfavoráveis — por exemplo, condenação já atingida pelo prazo depurador de cinco anos.

Na prática: o réu primário com condenação antiga, já além do prazo de cinco anos, não é reincidente, mas o juiz pode considerar esse histórico negativamente na análise do art. 59. A defesa deve estar atenta a esse ponto e demonstrar concretamente por que o histórico não merece peso negativo.

Como funciona a progressão de regime para réu primário?

O art. 112 da Lei de Execução Penal, com a redação dada pelo Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019), fixou percentuais diferenciados conforme a situação do condenado. Para o primário, as frações básicas são:

  1. 16% da pena — crime praticado sem violência ou grave ameaça à pessoa.
  2. 25% da pena — crime praticado com violência ou grave ameaça à pessoa.

Para o reincidente, os percentuais sobem para 20% e 30%, respectivamente. Crimes hediondos, resultados morte e outras situações têm frações específicas nos incisos do art. 112 da LEP e precisam ser analisados individualmente.

A primariedade influencia a prisão preventiva?

A primariedade é um dado favorável nos argumentos da defesa contra a decretação ou manutenção da prisão preventiva. Ela reforça a tese de que o acusado não representa risco concreto que justifique a segregação cautelar.

Contudo, não gera liberdade provisória automática. A prisão preventiva depende da presença concreta dos fundamentos dos arts. 312 e 313 do CPP — garantia da ordem pública, conveniência da instrução criminal ou aplicação da lei penal.

O Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019) reforçou a exigência de fundamentação concreta e individualizada, vedando decretos baseados em abstrações como “gravidade do crime em tese” ou “comoção social”. A ausência de reincidência entra como elemento do quadro fático apresentado pela defesa, não como regra automática de soltura.

Perguntas frequentes

Réu primário tem a pena reduzida automaticamente?

Não. A primariedade não consta do rol de atenuantes legais do art. 65 do Código Penal. O que ela faz é compor a análise das circunstâncias judiciais do art. 59 do CP e ser requisito de acesso a institutos como substituição da pena, sursis e ANPP — sempre em conjunto com outros critérios legais.

Qual a diferença entre primariedade e bons antecedentes?

Primariedade significa ausência de reincidência (arts. 63-64 do CP) e é avaliada na segunda fase da dosimetria, impedindo a agravante de reincidência. Bons antecedentes são avaliados na primeira fase, como circunstância judicial do art. 59 do CP. Uma pessoa pode ser primária e ainda ter antecedentes desfavoráveis — por exemplo, condenações já atingidas pelo prazo depurador de cinco anos.

Inquéritos em aberto prejudicam o réu primário?

Não podem ser usados para agravar a pena-base. A Súmula 444 do STJ veda expressamente o uso de inquéritos policiais e ações penais em curso para esse fim [VERIFICAR status vigente em stj.jus.br]. Enquanto não houver condenação com trânsito em julgado, o acusado permanece tecnicamente primário.

Réu primário tem direito ao ANPP?

A ausência de reincidência é um dos requisitos do Acordo de Não Persecução Penal, previsto no art. 28-A do CPP, introduzido pelo Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019). Além da primariedade, o ANPP exige pena mínima inferior a quatro anos, crime sem violência ou grave ameaça e confissão formal do investigado.

Qual a fração de progressão de regime para réu primário?

Conforme o art. 112 da Lei de Execução Penal, com a redação do Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019), o primário cumpre 16% da pena em crimes sem violência ou grave ameaça, e 25% em crimes com violência ou grave ameaça. O reincidente cumpre 20% e 30%, respectivamente. Crimes hediondos e com resultado morte têm frações específicas nos incisos do mesmo artigo.


Se você ou alguém próximo está enfrentando uma situação como a descrita neste artigo, agende uma consulta para análise técnica do seu caso. Cada situação tem particularidades que só uma avaliação detida pode esclarecer.

Nóbrega Advocacia — Direito Penal e Processual Penal.
nobregaadvocacia.com.br


Sobre o autor

Dr. Alexandre Nóbrega, advogado criminalista em São Paulo

Dr. Alexandre Nóbrega é advogado criminalista inscrito na OAB/SP, com atuação em Direito Penal e Processual Penal. Membro do IBCCRIM, da ACRIMESP e da AASP. Atua na defesa criminal em São Paulo há mais de uma década, com ênfase em júri, crimes contra o patrimônio, crimes econômicos e execução penal.

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